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Por que o Japão está armando os países do Sudeste Asiático? Especialista explica (VÍDEOS)

© AP Photo / Eugene HoshikoA primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, discursa durante uma coletiva de imprensa no gabinete da primeira-ministra em Tóquio, 21 de outubro de 2025
A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, discursa durante uma coletiva de imprensa no gabinete da primeira-ministra em Tóquio, 21 de outubro de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 08.09.2026
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Sob a liderança da primeira-ministra Sanae Takaichi, a nova diretriz do Japão para o Indo-Pacífico Livre e Aberto (FOIP) oficializa uma mudança de paradigma. O país deixa de focar majoritariamente no apoio financeiro tradicional para prover diretamente infraestrutura, tecnologia de vigilância e recursos militares a aliados estratégicos na região.
A postura mais bélica da política externa japonesa na área que compreende as nações da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), não é uma surpresa, mas sim, um processo que já estava em curso, conforme explica Valter Peixoto, analista político e pós-graduado em relações internacionais, em entrevista à Sputnik Brasil.

"O Japão, embora pareça que seja algo de agora, sempre foi atuante na região. Mas de forma muito silenciosa, justamente por causa dessas suas amarras históricas, constitucionais. E a primeira-ministra agora, Takaishi, ela é da linha política de Shinzo Abe, e é do grupo político dele. O conceito também japonês de armamento também, cada vez mais, se torna um conceito mais amplo", disse.

Nesse sentido, o pesquisador contextualiza o FOIP como uma plataforma japonesa para expandir sua influência na Ásia, apontando que a dinâmica operacional do programa se assemelha à forma como os EUA atuam em seu próprio entorno estratégico.

"O FOIP é um conceito usado a partir de 2017 pelo Japão, pensando na região do Indo-Pacífico, e tem contextos como ordem baseada em regras, que é um conceito estadunidense. É um termo que eles usam para utilizarem o direito internacional a seu bel-prazer", comenta.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursa durante reunião com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, no Salão Oval da Casa Branca, em 19 de março de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 21.05.2026
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ASEAN age para contrabalançar o programa japonês

Peixoto também aponta que a ASEAN adotou uma postura proativa para salvaguardar a estabilidade regional diante das pressões do FOIP. Como resposta, o bloco formulou as suas próprias diretrizes: o AOIP (Perspectiva da ASEAN sobre o Indo-Pacífico). Essa iniciativa funciona como um ponto de equilíbrio estratégico, desenhado especificamente para contrabalançar rivalidades externas e mitigar riscos de novos conflitos na região.

"O AOIP foi uma resposta diplomática da ASEAN ao FOIP. Defende uma visão inclusiva, não de confronto e centrada na ASEAN como centro de disputas e de conversas, que fala exclusivamente em cooperação econômica, conectividade, desenvolvimento e também para falar sobre as novas pautas de sustentabilidade", destaca.

Além do histórico de opressão nas Coreias e na China durante a Segunda Guerra Mundial, o expansionismo japonês também atingiu nações que hoje integram a ASEAN. Embora Tóquio nunca tenha emitido um pedido formal de desculpas, o país buscou mitigar esse passado doloroso ao se posicionar como o principal investidor e financiador do desenvolvimento regional para reconstruir sua imagem e consolida-se como um parceiro econômico indispensável, como analisa o pesquisador.

"No Sudeste Asiático, o Japão cometeu atrocidades na Segunda Guerra Mundial, como fazer teste de vírus em cobaias humanas. No entanto, o Japão é visto como neutro porque não está no centro da disputa geopolítica maior, e historicamente há muitas empresas japonesas desde os anos 70 e 80 que empregaram milhares de pessoas. Agora, o Japão tem a concorrência [comercial] da Coreia do Sul", observa.

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Tóquio mira Pequim e se projeta no Sudeste Asiático

Peixoto, idealizador do podcast MenteMundo, especializado em Sudeste Asiático, pondera que o FOIP, embora viabilize a compra de equipamentos bélicos por nações da região, não configura necessariamente uma afronta direta à China. Segundo o analista, para fins de contenção militar, o Japão já integra coalizões regionais de peso, como o QUAD (ao lado de Austrália, Índia e EUA) e o SQUAD (com Filipinas, Austrália e Estados Unidos).

"Se as Filipinas usarem radares para ficar de olho nos aviões chineses, são os filipinos, a gente [o Japão] vendeu os radares, não é a gente que militariza a região. Então assim, o FOIP é mais como construir uma resiliência econômica e tecnológica regional, que seja mais benéfica ao Japão. Em questão de militarização [e tentativa de contenção à Pequim], acho que o Japão tende mais ao QUAD e o SQUAD", conclui.

Ao longo dos anos, o Sudeste Asiático consolidou-se como uma das regiões mais dinâmicas do globo, impulsionado pela pujança econômica e política da ASEAN. No entanto, essa mesma relevância transformou as nações do bloco em um alvo estratégico para grandes potências que buscam projeção global em múltiplas frentes, inclusive a militar.
Esse cenário de disputa externa eleva a temperatura geopolítica e torna a área que compreende o Indo-Pacífico uma das zonas mais tensionadas e decisivas da atualidade.
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