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Japão financia mapeamento de terras raras no Brasil: parceria estratégica ou risco à soberania?

© Ana Torres / Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Minas GeraisEmpresa de extração mineral no Vale do Jequitinhonha, Sigma Lithium registra recorde de produção ao participar do Programa Vale do Lítio, do governo de Minas Gerais. Foto de 26 de setembro de 2025
Empresa de extração mineral no Vale do Jequitinhonha, Sigma Lithium registra recorde de produção ao participar do Programa Vale do Lítio, do governo de Minas Gerais. Foto de 26 de setembro de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 31.03.2026
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Com o objetivo de identificar novas jazidas de terras raras no Brasil, o Japão financiará, via Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), levantamentos geológicos em áreas da Bahia e de Minas Gerais. Especialistas avaliam à Sputnik Brasil se a parceria é estratégica ou representa algum risco à soberania, em um setor cada vez mais essencial.
Enquanto a China desponta na liderança da corrida global das terras raras — na última semana, o país anunciou a descoberta de uma das maiores reservas do mundo e aumentou em mais de 300% a disponibilidade do mineral estratégico —, outras potências correm contra o tempo para ampliar sua participação no setor. Nesse cenário, o Japão vai financiar um novo projeto para mapear possíveis depósitos naturais do insumo, além de lítio e grafite, em regiões consideradas promissoras no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, e na Bahia.
Para isso, serão investidos cerca de US$ 890 mil (R$ 4,6 milhões) ao longo de 36 meses, e a execução da pesquisa ficará sob a responsabilidade do Serviço Geológico do Brasil (SGB). A isso soma-se o desafio do país no setor: apenas 30% do território nacional está mapeado atualmente na escala que permite conhecer as riquezas minerais do país, número que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já apontou, em declarações recentes, que precisa ser ampliado. Mesmo assim, as regiões conhecidas mostram que o país já conta com a segunda maior reserva mundial de terras raras.
Esses minerais são considerados estratégicos para o desenvolvimento tecnológico, especialmente para baterias, semicondutores e aplicações em inteligência artificial, além de essenciais para a transição energética. Durante uma audiência pública no Senado Federal, um representante do SGB lembrou que o Brasil chegou a ter, até 1995, a cadeia de terras raras mais desenvolvida do globo, mas o investimento no setor foi descontinuado e atualmente o país aplica de 40 a 70 vezes menos recursos do que os líderes do ranking, como China e Estados Unidos.
O professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Luiz Jardim Wanderley ressalta à Sputnik Brasil que parcerias internacionais, como a realizada com o Japão para financiamento de estudos, apresentam oportunidades, mas também riscos.
"Você vai informar aos demais países e empresas um potencial de exploração do território brasileiro. Isso, do ponto de vista estratégico, colocaria em desvantagem companhias nacionais que não estão financiando [projetos] diretamente. Além disso, quando as pesquisas são feitas em parceria com estruturas públicas brasileiras, isso diminui o risco de vazamento de informações privilegiadas e reduz o favorecimento indevido a empresas internacionais."
Apesar disso, o especialista pontua que a pesquisa mineral no Brasil ainda está fortemente concentrada na iniciativa privada, e não no Estado. Por isso, mesmo quando há financiamento externo, ele considera essencial fortalecer estudos conduzidos pelo SGB, garantindo que o país tenha conhecimento sobre o seu subsolo.
"Existe uma grande expectativa de que as terras raras serão o minério estratégico do futuro, e hoje há uma concentração muito forte desse setor na China. Mas as outras potências, sobretudo as ligadas ao setor de tecnologia, estão preocupadas se vão ter recursos para garantir o abastecimento, a exemplo de Japão e Estados Unidos, que vêm se colocando como interessados diretos na busca por fontes de minerais", resume.
O professor associado da Faculdade de Engenharia Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Gustavo Doubek acrescenta à Sputnik Brasil que o mapeamento dos recursos minerais, como as terras raras, é crucial para saber como explorar essa riqueza. Porém é justamente esse ponto que vai interferir ou não na soberania do país.
"Não basta apenas explorar, é preciso avançar no refino, no processamento dos materiais, no uso dessas matérias-primas, na integração com a indústria e no desenvolvimento de produtos, além de aumentar o valor agregado desses recursos. Isso sim está ligado à soberania, à geração de riqueza e à independência tecnológica", defende.
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Conflito no Irã e descarbonização

Já o analista de geopolítica e pesquisador de petróleo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Luis Rutledge acredita que as parcerias internacionais em terras raras estão cada vez mais ligadas à garantia da segurança energética dos países. Conforme o especialista, atualmente a descarbonização avança de forma exponencial no mundo.
"Vale destacar que, em função do conflito no Irã, da consequente incerteza na oferta de óleo e gás e da escalada do preço do barril de petróleo, houve um impulso na procura por carros elétricos", cita à Sputnik Brasil.
Diante disso, Rutledge vê a cooperação com o Japão como importante para ajudar a fortalecer esse setor e também ampliar o comércio exterior com a Ásia. O pesquisador enfatiza que o país possui uma postura considerada pragmática no setor energético e "não faz acordos por ideologia", seja com países do BRICS, seja na questão do Mercosul com a União Europeia, seja agora, com o Japão.
"Para o Brasil, o importante é reforçar o caráter pragmático da política energética brasileira, que prioriza segurança e estabilidade do sistema", ressalta.
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Brasil e as limitações estruturais na cadeia mineral

Apesar da relevância das reservas, o país ainda enfrenta limitações estruturais que dificultam a captura de maior valor econômico ao longo da cadeia produtiva de minerais, incluindo as terras raras. O professor Gustavo Doubek avaliou que o Brasil já possui forte atuação na extração e exportação de minerais, mas ainda carece de maturidade nas etapas mais avançadas. Segundo ele, o principal gargalo está no refino e no uso desses materiais em aplicações industriais de maior complexidade, como semicondutores, armazenamento de energia, ímãs de alta performance e ligas especiais.
"Toda essa ponta da cadeia é bastante cara e realmente exige um esforço colaborativo [para ser desenvolvida]. E é isso que ainda não temos muito consolidado. É preciso pensar em como conectar as diferentes indústrias com os recursos naturais que o país já possui."
Por fim, Doubek cita como oportunidade a busca dos países por diversificação de fornecedores de itens cruciais para as novas tecnologias, como semicondutores, no contexto pós-pandemia — período em que a indústria global foi severamente impactada pela falta de chips, devido à paralisação das linhas de produção. "Isso acaba abrindo novos mercados que o Brasil e a América Latina podem explorar, mesmo que ainda não estejam totalmente consolidados nessa indústria de ponta."
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