Panorama internacional

EUA usam petróleo venezuelano como contrapeso à influência chinesa na América Latina, diz analista

O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, reuniu-se na quarta-feira (11) no Palácio de Miraflores com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, durante a primeira visita de um alto funcionário do governo de Washington a Caracas com uma agenda exclusivamente focada em energia.
Sputnik
O encontro ocorreu após o Departamento do Tesouro emitir uma série de licenças que autorizam operações no setor petrolífero venezuelano.
"Recebemos o secretário de Energia Wright e sua equipe. Tínhamos uma agenda de trabalho com pontos focais importantes", declarou Rodríguez.

"Temos um projeto para uma parceria produtiva de longo prazo, que permitirá uma agenda energética que se torne a força motriz da relação bilateral", acrescentou.

Wright, por sua vez, expressou que o presidente dos EUA, Donald Trump, "está comprometido em transformar a relação entre os Estados Unidos e a Venezuela". O secretário assegurou que seu governo "tem trabalhado sete dias por semana para solicitar licenças, para que empresas existentes na Venezuela, novas empresas que desejam entrar no país e empresas nacionais venezuelanas possam comprar produtos, investir capital e aumentar a produção de petróleo".
A visita do secretário de Energia ocorre após a emissão da Licença 48, de 10 de fevereiro de 2026, pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC, na sigla em inglês) do Departamento do Tesouro dos EUA, que autoriza transações comuns e eventuais necessárias para o fornecimento, pelos EUA ou por pessoas dos EUA, de bens, tecnologia, software ou serviços para a exploração, desenvolvimento ou produção de petróleo e gás na Venezuela.
Panorama internacional
Situação em volta de Venezuela, Cuba e Irã mostra que mundo entra na época de mudanças, diz Lavrov
A licença estabelece exclusões significativas: proíbe transações com indivíduos ou entidades de Rússia, Irã, Coreia do Norte, Cuba e China; não autoriza a formação de novas joint ventures para explorar ou produzir hidrocarbonetos na Venezuela; exclui a exportação ou reexportação de diluentes; e não permite condições de pagamento não comerciais, swaps de dívida ou pagamentos em ouro ou criptomoedas emitidas pelo governo venezuelano.

Seria uma forma de conter a China?

O analista político Igor Collazos, em entrevista à Sputnik, destacou que essa licença constitui uma ação com profundas implicações geopolíticas. Em sua visão, a proibição de transações com os países mencionados faz parte de uma operação para definir esferas de influência. "Os Estados Unidos estão simplesmente demarcando seu território", afirmou.
O analista relacionou essa medida à reconfiguração estratégica de Washington, não em direção ao Oriente Médio, mas sim ao Pacífico.

"Todo o avanço dos EUA na Síria, no Líbano e no Oriente Médio, desde a época de [Barack] Obama [2009-2017], visava impor seus interesses em uma região contrária aos seus objetivos de longo prazo. Agora, com sua nova estrutura de segurança nacional, fica claro que seu interesse é conter a China", declarou.

Collazos alertou sobre as consequências da reintegração da Venezuela ao mercado norte-americano.
"A Venezuela desempenhou um papel como fornecedora de petróleo na Segunda Guerra Mundial. No entanto, o fato de os EUA estarem usando essa reserva para sustentar o sistema do petrodólar, minar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo [OPEP] e garantir a possibilidade de um ataque no oceano Pacífico apresenta um cenário diferente", indicou ele.
O analista descreveu a situação como "uma consolidação de territórios na fase final do jogo para confinar a China fora do Hemisfério Ocidental". No entanto, ele afirmou que "essas reconfigurações não são processos de semanas ou meses, são processos de décadas".
Notícias do Brasil
Venezuela intensificou o debate sobre maior integração entre diplomacia e defesa, dizem analistas
Ele acrescentou que "a composição demográfica dos Estados Unidos está mudando, e o processo de hegemonia chinesa é inexorável. Portanto, o jogo dos Estados Unidos ainda não acabou, pelo menos no que diz respeito às suas ambições hegemônicas na América Latina e no Caribe".

Um novo começo?

Contrariando a perspectiva de Collazos, o especialista em geopolítica do petróleo, Miguel Jaimes, ofereceu à Sputnik uma perspectiva sobre a visita de Wright, focando nas capacidades energéticas da Venezuela.

"O secretário de Energia dos EUA visitou a Venezuela por três dias para avaliar a situação das refinarias venezuelanas, as projeções de produção, as relações, os cronogramas e a questão do investimento e dos avanços tecnológicos nos centros de operações de energia", declarou.

Jaimes afirmou que "a Venezuela é um país importante no Hemisfério para a regulação do setor energético. Muitos países esperam que a Venezuela entre no mercado para estabilizar os preços e a distribuição de energia". Segundo o especialista, "o governo venezuelano tem interesse em fortalecer seu setor energético, que possui um século de experiência na formação do cenário energético".

O especialista reconheceu que "os Estados Unidos estão empenhados em garantir que o setor energético da Venezuela volte a prosperar". Ele observou que "a Venezuela não tem problemas em firmar acordos com Washington, apesar de experiências passadas em que o setor foi prejudicado por medidas norte-americanas".

Jaimes indicou que "estamos abordando esse retorno do investimento norte-americano ao país, o que é importante em termos de investimento, produção e distribuição de petróleo". Ele afirmou que "a Venezuela está retornando à participação direta e confiável. É um fornecedor seguro e possui reservas significativas", enfatizou.
Panorama internacional
Assembleia Nacional da Venezuela aprova projeto de lei de anistia

Um futuro promissor?

Durante a reunião no Palácio de Miraflores, as delegações discutiram áreas específicas de cooperação. "Discutimos projetos relacionados a petróleo, gás, mineração e eletricidade. Hoje, discutimos questões relacionadas aos setores de gás, petróleo, mineração e eletricidade da Venezuela, explorando maneiras de avançar", explicou Rodríguez.

"Os Estados Unidos e a Venezuela mantêm uma relação energética há um século e meio. Ela começou com a extração de asfalto. Essa relação foi marcada por altos e baixos em nossas relações políticas e geopolíticas", acrescentou.

Ele afirmou que "por meio da diplomacia, superaremos nossas diferenças. O diálogo diplomático, o diálogo político e o diálogo energético são os canais apropriados para que os Estados Unidos e a Venezuela abordem, de forma madura, apesar de nossa divergência histórica, como avançar".
Rodríguez projetou a continuidade das reuniões. "Esta primeira viagem será a abertura para muitas outras. Certamente teremos a visita do secretário Wright e suas equipes técnicas", indicou.
Wright, por sua vez, afirmou que, "trabalhando juntos, o povo da Venezuela e o povo dos Estados Unidos podem alcançar um aumento na produção venezuelana de petróleo, gás natural e eletricidade neste ano". O representante observou que o objetivo é "aumentar as oportunidades de emprego, os salários e a qualidade de vida dos venezuelanos" e que isso "beneficiará os Estados Unidos, o Hemisfério Ocidental e nossa futura parceria".
Acompanhe as notícias que a grande mídia não mostra!

Siga a Sputnik Brasil e tenha acesso a conteúdos exclusivos no nosso canal no Telegram.

Já que a Sputnik está bloqueada em alguns países, por aqui você consegue baixar o nosso aplicativo para celular (somente para Android).

Comentar